Se você acompanha o mercado financeiro, já deve ter esbarrado em ofertas de CDB do Banco Digimais prometendo 135% do CDI. E se algo dentro de você desconfiou na hora, essa desconfiança faz todo sentido: uma rentabilidade tão acima da média costuma ser um sinal de alerta, não uma oportunidade imperdível.
Tenho recebido perguntas de leitores sobre se vale a pena entrar nesse tipo de aplicação. Então decidi explicar, com calma e sem alarmismo, o que está por trás dessa oferta e o que você precisa considerar antes de tomar qualquer decisão.
Quanto realmente rende 135% do CDI?
Com a Selic e o CDI na casa dos 14,25% ao ano, aplicar a 135% do CDI significa uma rentabilidade próxima de 19,23% ao ano.
Na prática, alguém com R$ 100 mil aplicados por um ano inteiro receberia algo em torno de R$ 19 mil em juros, valor sobre o qual ainda incide Imposto de Renda. O detalhe que muita gente esquece de colocar na conta é o risco: se o banco quebrar antes do fim do prazo, os pagamentos param. É justamente esse risco que precisa entrar na equação antes de qualquer decisão.
Por que esses títulos aparecem com rentabilidade tão alta?
Boa parte dos investidores brasileiros está concentrada em corretoras como XP, Rico e Clear, que pertencem ao mesmo grupo, ou em plataformas ligadas ao BTG, como Necton e EQI. Quando um cliente tem, por exemplo, R$ 350 mil aplicados em um banco que apresenta sinais de risco, o assessor precisa agir rápido.
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre até R$ 250 mil por instituição financeira. Quando o cliente ultrapassa esse limite, é comum que o assessor recomende vender parte dos títulos, muitas vezes com desconto, justamente para reduzir a exposição acima do valor garantido. Isso protege o investidor de uma perda maior caso o banco realmente enfrente problemas.
Como um título chega a render 135% do CDI?
Aqui está o ponto que poucas pessoas entendem: o título pode não ter sido emitido originalmente a essa taxa. É comum que ele tenha começado em 115% ou 120% do CDI e, ao longo do tempo, tenha rendido esse percentual acumulado.
Quando alguém precisa se desfazer desse papel rapidamente, ele acaba sendo vendido com desconto. Para quem compra, o retorno equivalente se torna bem mais atrativo. Quanto mais experiente o assessor, mais esses papéis tendem a circular no mercado secundário, já que ninguém quer transferir um eventual prejuízo diretamente para o cliente enquanto existe a alternativa de deixar o FGC cobrir a diferença.
Vale lembrar que o FGC não é um órgão público. Ele é mantido pelos próprios bancos, que fazem contribuições periódicas para financiá-lo. Ou seja, quando uma instituição quebra e o FGC paga os correntistas, na prática são os outros bancos do sistema que dividem esse custo entre si.
O aporte de Edir Macedo no Digimais
Um fato recente mudou parte desse cenário. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Edir Macedo, controlador do Banco Digimais, injetou cerca de R$ 1,5 bilhão na instituição na tentativa de viabilizar sua venda. O objetivo seria reduzir o déficit no balanço e tornar o banco mais atrativo para possíveis compradores, entre eles BTG Pactual e Banco Safra, que já mantêm conversas nesse sentido.
Esse movimento muda parte da equação para quem avalia comprar esses títulos: se o banco não quebrar e for efetivamente vendido para uma instituição sólida, quem investiu nesse período tende a receber a rentabilidade combinada até o fim do contrato normalmente.
O que a Polícia Federal está investigando
Em junho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem, que apura suspeitas de fraude na gestão do Banco Digimais. Segundo a investigação, baseada em relatórios do Banco Central, administradores da instituição teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para aparentar uma situação financeira mais sólida do que a real, mascarando possíveis sinais de insolvência.
A Justiça Federal de São Paulo autorizou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens dos investigados. Segundo apurações posteriores, o rombo no balanço do banco poderia chegar a R$ 8,5 bilhões, e as investigações apontam semelhanças com o caso do Banco Master, outra instituição que enfrentou um colapso envolvendo suspeitas de fraude contábil.
É importante frisar: até o momento, nada foi julgado. O Banco Digimais afirmou publicamente que colabora com as autoridades e reafirma seu compromisso com a transparência e a conformidade regulatória. Ainda assim, esse é exatamente o tipo de informação que precisa pesar na decisão de quem avalia investir na instituição agora.
Vale a pena investir nesse tipo de CDB?
Se, mesmo com esse cenário, você decidir aplicar, o recomendável é fazer isso de forma bastante controlada. Considere valores relativamente baixos, algo entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, uma quantia que você consiga deixar parada por 40 a 60 dias sem comprometer o seu orçamento. Esse costuma ser o tempo aproximado que o FGC leva para ressarcir investidores em caso de quebra de um banco.
Mantenha-se sempre dentro do limite de R$ 250 mil por CPF garantido pelo FGC e evite chegar exatamente no teto, já que qualquer valor acima disso não tem cobertura. Se você já ultrapassou esse limite, uma alternativa dentro da legalidade é distribuir parte dos investimentos entre CPFs de familiares de confiança, como cônjuge, para manter cada CPF dentro da faixa protegida.
O que levar dessa história
Esse tipo de título pode até fazer sentido para quem entende os riscos envolvidos e investe com moderação, mas exige atenção redobrada, principalmente quando há uma investigação em curso sobre a instituição emissora.
Rentabilidade muito acima da média do mercado quase sempre carrega um motivo por trás. Cabe a cada investidor avaliar, com informação de verdade e sem euforia, se esse motivo compensa o risco que está sendo assumido.
Perguntas frequentes sobre CDB de alta rentabilidade
Por que alguns CDBs oferecem rentabilidade tão acima da média? Geralmente porque o banco emissor está em dificuldade financeira e precisa captar recursos rapidamente, oferecendo uma taxa mais alta para atrair investidores dispostos a assumir mais risco.
O FGC cobre todo o valor investido em caso de quebra do banco? Não. A cobertura vale até R$ 250 mil por instituição financeira, por CPF. Qualquer valor acima disso não está garantido.
Quanto tempo o FGC leva para pagar os investidores após a quebra de um banco? Costuma levar entre 40 e 60 dias, período em que o investidor fica sem acesso a esse dinheiro. Por isso, é importante só aplicar valores que você não vá precisar nesse intervalo.
É seguro investir em um banco que está sendo investigado pela Polícia Federal? Não existe garantia de segurança nesse cenário. O ideal é acompanhar o andamento das investigações, entender os riscos envolvidos e, se decidir investir mesmo assim, fazer isso com valores controlados e dentro do limite garantido pelo FGC.
Para fechar
Rentabilidade alta chama atenção, e é justamente por isso que ela também exige mais cuidado antes de qualquer decisão. Aqui no Fora do Buraco, a ideia é sempre essa: te ajudar a enxergar o que está por trás de uma oferta tentadora antes que ela vire mais um problema financeiro, e não uma solução.
Continue acompanhando o blog para mais conteúdos sobre como proteger o seu dinheiro e investir com mais segurança.